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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

AS ESTÓRIAS DE VOVÓ

         
O GANSO

       
     Era após o jantar, enquanto lá fora anoitecia, que sentávamos nos bancos de madeira à volta da grande mesa e ficávamos ouvindo as estórias da vovó. 
     Naquela noite chuvosa ela contou-nos a epopeia do ganso.     
            
     "Havia lá na fazenda um ganso solitário e um pouco estranho, porém muito generoso e simpático.
         Havia também uma mamãe-pata incompetente e doidivana que gostava de aventuras e distrações, sem a menor vocação maternal.
        Queria  continuar a mesma vida livre de "mocinha", a passear pelos matos, atrás do papai-pato.
          Os patinhos corriam para alcançá-la, porém, ela não lhes dava atenção, e, no final de cada excursão dessas a ninhada voltava desfalcada de alguns filhotes.
            Irritado com o comportamento de mamãe-pata, o nosso ganso tomou a decisão de adotar os infelizes inocentinhos e, usurpou, sem cerimônia, o direito de criá-los.
Vovó contando histórias
            Enxotava com bicadas violentas a mamãe-pata, todas as vezes que ela tentava se aproximar dos filhos. Daí por diante passou a tratar dos patinhos com uma dedicação comovente.
           Sempre cuidadoso levava-os  a passear em lugares limpos e saudáveis defendendo-os de todos os perigos.
           Á noitinha, conduzia-os para debaixo da casa da fazenda onde os deixava seguros e agasalhados. Só então, seguia para o galinheiro onde se acostumara a dormir no seu canto.
            Pela manhã, bem cedo, já estava ele à testa de sua turminha, frente à portinhola da cozinha, grasnando pedindo comida.  Uma vez alimentados lá ia ele todo enfatuado com sua  ninhada muito cônscio de suas responsabilidades.
             Mamãe-pata até que gostou.
         Passado algum tempo os patinhos cresceram e tornaram-se independentes.
         Eis que, certo dia, aparece no terreiro uma galinha acompanhada com sua ninhada de pintinhos; não é que nosso ganso cismou de criar aqueles pintinhos também!?...
            Só que dessa vez se deu mal. A galinha era mãe dedicada e amorosa e se enfezou de tal modo contra o ganso que o venceu com suas bicadas e esporadas, botando-o para correr.
           Desde esse dia ele ficou muito triste e cada vez mais solitário.
          Algum tempo depois - parece até ironia, mas é a pura verdade - o nosso herói apareceu afogado no tanque de lavar café que hoje serve de piscina".


          Os garotos ficaram bastante impressionados com o "caso", emocionaram-se com a má sorte do ganso. Fizeram perguntas e estranharam principalmente, o fato de um ganso morrer afogado, por quanto sabiam que os gansos, como os patos, adoram água e são exímios nadadores.
          Vovó após divertir-se um pouco com as reações infantis, explicou que, não só o ganso, mas outros patos também haviam tido o mesmo fim.
            O acidente se devera ao fato de estar o tanque com água apenas até ao meio de sua altura. As aves uma vez dentro, não tinham como sair e acabavam morrendo de fome e de cansaço pelo esforço para se salvarem.
            Nessa época não havia ninguém na fazenda e os campeiros davam atenção apenas ao gado, não se importando com os outros animais e aves do terreiro do casarão.
            Os meninos já estavam com sono e vovó mandou-nos escovar os dentes e ir ao banheiro, pois já estava na hora de dormir; pedimos mais "casos" e ela prometeu-nos  outros para o dia seguinte à mesma hora.
            Obedecemos e meia hora depois a casa se encontrava no mais completo silêncio.


*Assim Como o Vinho, Marina Rezende, 2004. 
  Ilustração do ganso retirada da Internet.
 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

CRESCENDO JUNTOS

       Mal o bebê começava a sugar a chupeta amarrada na ponto da fralda, a gatinha, sorrateiramente, enfiava-se por debaixo das cobertas e começava a chupar a outra ponta da fralda. Aquilo já havia virado um hábito, acontecia praticamente todos os dias, nos horários os mais variadas. 

           Ninguém sabia de onde vinha aquela gatinha. A mãe do bebê odiava aquilo, pensava que o animal poderia transmitir alguma doença ao seu filhote, então, corria com a gatinha dali, agindo diferente do pai que adorava olhar o bebê e a gatinha sugando a chupeta e a ponta da fralda naquele barulhinho tsuc ... tsuc ... tsuc ... interminável. A gatinha parecia imitar o barulhinho do neném chupando a chupeta, ou era o contrário? A mãe desconfiava que o marido talvez tivesse alguma coisa a ver com o aparecimento da gatinha, mas ele jurava que não.
         Assim, ela acabou por aceitar essa situação, adotando o felino, não antes de higienizar a pobre gatinha que era obrigada a tomar pelo menos um banho por dia. 
       
         Os dois filhotes cresceram juntos. A gata era levada para todos os lados dentro da mochila do menino e eram parceiros em várias brincadeiras, o que deixava a mãe de cabelo em pé, principalmente, na hora do futebol, quando o felino era jogado como um bola, na rede, e ao pousar sobre ela, a gata pulava ao chão e numa corrida de dar inveja a qualquer atleta, se jogava no colo do menino e continuavam com a brincadeira até que o primeiro a se cansar pusesse fim a ela.
        Como a criança morava em frente à escola era comum a gatinha ser vista andando sobre o muro do colégio ou esperando pacientemente o término das aulas deitada no banco do pátio externo.
         
      Aos dezesseis anos o rapaz nem se iniciara ainda na vida adulta e, a gata, já matrona e gorducha, preferia ficar dormitando em sua almofada, raramente saindo com seu dono. Ele então passou a treinar o futebol, com o filhote nascido da última ninhada, sob o olhar atento da mamãe gata. Mas o filhote também agora entrando na vida adulta, só queria saber de correr atrás das gatinhas, não demonstrando o mínimo pendor para os esportes. Compreensivo, o jovem resolveu deixá-lo em paz, afinal ele também, agora, estava mais interessado em outro tipo de gatinhas, aquelas dos longos cabelos que balançavam ao vento em ritmo cadenciado.




* Autora: Marina Alice Rezende
      

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O CARROSSEL



   Lulu já estava acostumada, mal começava a escurecer e aquela claridade imensa tomava conta de tudo. A luz dourada dançando de lá pra cá, banhava o pátio e devagarinho ia subindo até cobrir todo o morro.       
Seu  pai então saia de casa, subia o morro e ficava lá por várias horas. 
           
          Lulu, muito curiosa, sempre perguntava ao pai aonde ia. Ele                                     respondia: “Vou dar uma volta”.
Um dia, escondida, resolveu seguir o pai.
Subindo ... subindo ... ia acompanhando seu pai, de longe, sem que ele a visse. Estava cansada. Achava já ter passado por aquela pedra parecendo um cachorro, um monte de vezes. Com os pés doendo, resolveu sentar para descansar e ... dormiu. Quando acordou estava no colo de seu pai, indo em direção ao topo do morro.
-Bonito, né? , disse o pai. Querendo me enganar? Eu estava lhe preparando uma surpresa. Vamos lá, disse então com uma beijoca na face da menina.
Continuaram a subir o morro. Chegando lá, Lulu ficou surpresa. Um enorme e lindo carrossel, mais de vinte bichinhos, cavalinhos, carneirinhos e renas,  rodopiavam. Em cada um, havia um amiguinho, brincando nos bichinhos. Desconhecidos ainda, Lulu notou que eles eram coloridos. Grandes olhos azuis, anteninhas amarelas, corpo vermelho. Outro de olhos vermelhos, anteninhas brancas e corpo verde. O que mais ela gostou foi o que estava no cavalinho ao lado do dela, todo dourado, os olhos mudavam de cor a cada piscada.
Ela amou. Agora, toda tarde ela subia para brincar com os  novos amiguinhos.



  *Autora: Marina Alice Rezende
    Ilustração: Internet

domingo, 27 de novembro de 2011

UM CONTO DE NATAL


O URSINHO      

          Enorme, azul, seus olhos de vidro preto brilhavam. O ursinho parecia estar sorrindo. Lily também sorriu para ele, achando que o ursinho queria brincar com ela. Botou a língua de fora, o ursinho repetiu o gesto. Agora ela tinha certeza. O ursinho queria brincar com ela.
          - Mamãe, o urso quer ser meu amigo. Ele está rindo para mim.
          - Sorria para ele também, disse a mãe.
          - Compra para mim, mãe ?
          - Outro dia ...
Conformada, ela saiu da loja acompanhando a mãe, com os olhos marejados de lágrimas, olhando triste para o ursinho.
Aquela noite o Papai Noel ia chegar.
Já era Natal.
Lá fora chovia muito.
Lily dormiu e sonhou. Papai Noel passava de trenó no jardim perto de seu quarto, jogou um grande pacote pela sua janela, que caiu em cima da cama. De dentro do pacote saltou o ursinho azul. Mal aterrizou nos lençóis ele já brincava de pula-pula, dava cambalhotas, rolava por cima do travesseiro, caía no chão e saltava de novo para a cama. Fez tanta estrepulia, que escorregou e bateu com o queixo no pinico que vovó colocou embaixo da cama. Machucando-se, limpou o sangue na camisolinha de Lily. Deitou-se ao lado dela e cansado, dormiu.
Que surpresa a de Lily, quando acordou de manhã, viu seu enorme amiguinho dormindo a seu lado. Cuidadosamente, limpou com um algodão umedecido um restinho de sangue no queixo do ursinho. Abraçando-o dormiu mais um pouquinho.
Papai Noel é mesmo muito legal!




* Autora: Marina Alice Rezende
       Ilustração: Internet

domingo, 20 de novembro de 2011

EVOLUÇÃO


          Uivando para a lua, ela pulava, dava cambalhotas, urrava. A enorme mecha dourada, saindo de sua juba, brilhava intensamente. Como numa dança, pulava e se sustentava apenas nas patas traseiras. Era puro instinto. Contagiadas, as jovens fêmeas do bando se juntaram a ela numa ensurdecedora homenagem à lua. Não se davam conta, mas estavam dando mais um pequeno passo em direção à evolução humana, experimentando os primeiros indícios de emoção. Os machos atônitos rodearam o grupo e aos poucos os mais jovens aderiram aos folguedos, uivando e rodopiando.
           Os mais jovens já sofriam pequenas mutações. Ficavam em pé sobre as patas traseiras e diferentes de seus pais, seus corpos apresentavam poucos pêlos enquanto suas cabeças se enchiam deles. As jovens fêmeas gostavam de enfiar sementes coloridas ao longo dos fios de sua cabeça, enquanto os jovens machos, encantados, corriam atrás delas arrancando tudo.
           Estes folguedos começava a preocupar o velho macho, líder do bando. Um novo bando, com hábitos diferentes, estava se formando e ele não sabia como lidar com isto. Sentia sua superioridade ameaçada. E para mostrar sua força dispersava o grupo violentamente.
           Mas ele estava envelhecendo e um novo líder não tardaria a aparecer. Passou a observar o grupo e, ao contrário de seus antecessores, escolheria e treinaria seu sucessor, zelando pela integridade do bando.



          Zur, forte e destemido, exercia uma liderança natural entre os jovens e estava sempre atento à segurança de todo o bando. Assim, foi o escolhido para o treinamento, tornando-se o braço direito do líder. Gostava de nomear os componentes do bando e deu a si mesmo o nome de Zur, pois gostava de urrar emitindo este som e esmurrando o próprio peito. Zair ficou sendo o nome da fêmea que mais o encantara devido à sua enorme mecha dourada. Conforme Zair ia se tornando adulta, seus olhos iam mudando de cor – um azul, da cor do céu e o outro verde como as folhas da mata. Zur observou que o mesmo ia acontecendo com as outras fêmeas. Ele ficava extasiado com a profusão de cores - pretos, marrons, verdes e azuis - dos olhos delas. Via que elas gostavam de se enfeitar com sementes e flores, o que não era hábito entre as mais velhas do bando.
           O líder, a quem Zur passou a chamar de Tor, percebia as mudanças que estavam ocorrendo na tribo. Os sons antes desconexos, começaram a fazer sentido. As emoções passaram a fazer parte do cotidiano do bando. E Tor viu então, os olhos de Zur cheios de lágrimas, quando mortalmente ferido jazia nos braços do jovem líder.
          Ao cobrir com terra a cova onde colocou o corpo sem vida de Tor, Zur não sabia, mas estava dando outro enorme salto na escala evolutiva. O Gatilho da Evolução havia sido disparado e não tinha mais como ser contido.


Fugindo da tempestade que ameaçava desabar, o novo líder ia à frente do bando procurando um lugar seguro. Enquanto isso, batia e esfregava vigorosamente gravetos e pedregulhos, tentando repetir a faísca saída do atrito entre os galhos de árvore usados para abrir o buraco na terra, que guardava o corpo do velho líder. Sem perceber que estava preste a se deparar com uma das maiores descobertas da humanidade - O Fogo.





* Autora: Marina Alice Rezende
   Ilustrações: Internet.