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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

HOMENAGEM AO DIA DOS PAIS



São coisas que aprendi,
e nunca me esqueci,
que o coroa disse
antes de partir:
'Para vencer,
tem que exercer com o maior prazer,
manter a disciplina
e fazer por merecer.
Viver com honestidade
e sem parada errada,
manter as coisas limpas
e sempre organizadas.
Respeite a família
e a sua casa sagrada.
Nunca leve para dentro
as pipas avoadas.
O cara que estuda
só se engrandece.
O cara que não ganha dinheiro
só se aborrece.
A vida é corrida
e cada um faz a sua parte,
o que tu tens de estudo
eu não tive a metade.'
Pode crer!
A você só tenho a agradecer.
Plantou a semente
para a árvore crescer.
Muito obrigado
pelo cão que me deu,
e principalmente,
a mãe que escolheu.
Com muito orgulho
e com muito amor,
eu cito aqui
o meu principal professor,
Que vezes me deu,
e outras vezes tirou,
e hoje descansa
junto ao Senhor...
Eu te amo.


Luís Gustavo de Rezende Baltazar

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

MINHA DOCE VOZINHA




Não gostava daquela visita.
Era ela chegar e a conversa girava sempre em torno do mau gênio de minha avó. E tinha tantas histórias pra contar ... a preferida era aquela que num passeio em plena Lua de Mel, minha avó aborrecida atirou o chapéu longe e não desamarrou mais a cara até o final do passeio. 

Os anos se passaram.

Eu não esquecia aquelas histórias mas faltava coragem para falar com minha avó sobre elas. 

Então, uma tarde em que vovó estava particularmente falante, contando passagens de sua vida, tomei coragem e perguntei: "Vó que história é esta que a senhora jogou seu chapéu longe, enraivecida, quando passava lua de mel aqui no Rio de Janeiro.  É verdade isso ? "

- Foi o vento, disse ela.

E aos oitenta anos vovó contou com riqueza de detalhes, mas que aqui vou resumir, a seguinte história:

"Fiquei noiva aos 13 anos e me casei aos 16 anos. Durante este período nunca podia ficar à sós com meu noivo, ele ia visitar meu pai e ficavam horas conversando. A empregada ia me avisar "seu noivo chegou ..." e eu ficava namorando-o pelo buraco da fechadura, até meu pai dar ordem para eu entrar na sala e despedir-me dele. Casamos e viemos passar a Lua de Mel no Rio de Janeiro. 

Passando férias no Rio, havia um casal amigo que todos os dias, mal amanhecia e já estavam na portaria do Hotel nos chamando. Queria nos mostrar a Cidade. Éramos recém-casados e  queríamos ficar a sós. Não estávamos nem um pouco interessados em conhecer a cidade naquele momento. Eu pedia ao seu avô que agradecesse e dissesse que não íamos. Mas ele não tinha coragem, dizia que o casal era tão gentil, afinal haviam atravessado a cidade tão cedinho só para convidar-nos a passear e conhecer as delícias do Rio de Janeiro. 

Era tão cedo ... ventava muito ... carro aberto ... difícil segurar chapéu, cabelo, bolsa, assim tudo junto. Aborrecida com a ventania, cabelo nos olhos, resolvi soltar o chapéu que teimava em não parar no meu colo e ele foi atirado longe pelo vento".

Ahhhh ... minha doce e querida vozinha ...   Te entendo tão bem!

As delícias que vocês queriam eram bem outras. 

Se tivessem seguido seu coração e fossem menos educados, essa fama de mau gênio não teria atravessado gerações.








sexta-feira, 7 de setembro de 2012

UM MEIO DE CAMPO CONTURBADO


                                                                                   
                                                                                              

Nosso time familiar era muito grande, minha mãe, então, distribuiu-nos por internatos em diferentes colégios e cidades. Cada final de semana ela ia visitar um filho. Demorava a chegar a nossa vez e a saudade era tanta, que para aplacá-la, saíamos às escondidas do colégio e íamos passear pelas ruas da cidade. Coisa chata, ruas vazias, nada pra fazer. Só a voz do locutor radiando o jogo de futebol, que repercutia pelas calçadas das casas por onde passávamos. Depois de duas ou três escapadelas, desistimos. Voltávamos esfomeadas, cansadas e aborrecidas. Da experiência só ficou aquela sensação de melancolia que a voz do locutor narrando o jogo nos fazia sentir. Sensação que nos acompanha até hoje ao ouvir a narração dos jogos.


Na adolescência tudo mudou. O futebol virou uma grande alegria. Meus irmãos com os amigos, formaram um time de futebol e aos finais de semana viajávamos com eles, na maior torcida. Na verdade eu só gostava da festa, nunca me interessei muito pelos jogos. Aos dezesseis anos namorei um juiz de futebol. Acompanhava-o no curso de formação e aos treinos dos jogos. Só prestava atenção nele e nem sabia o que estava acontecendo em campo.






Mais tarde casei-me com um fanático torcedor do Flamengo. Quando seu time fazia um gol seu berro ecoava por toda a cidade. Quando fui para a maternidade, enfeitando a porta do quarto havia um boneco vestindo as cores do time. Seu primeiro presente para o garoto foi uma camisa do flamengo. Uma vez, como presente do aniversário de namoro levou-me ao Maracanã, onde eu nunca tinha ido, para assistir ao final do Campeonato Carioca, FLAMENGO x .... (não sei qual era o outro time). Adorei os balões que aos milhares cobriam o estádio. A torcida era um show à parte. Nunca tinha visto tantos fogos, tantas bandeiras, tanta gente junta. Achei tudo tão lindo que distraída, nem olhava para o campo. O garoto cresceu, hoje quando grita e comemora seu time num estrondoso GOOOOOLLLLL ....... um outro berro continua ressoando pela cidade, acompanhado de fogos, estrondos e assovios, vindos do infinito. É o pai que de lá ... continua comemorando seu time do coração.


Texto de Marina Alice Rezende
Imagens Internet




quarta-feira, 11 de abril de 2012

AMADURECENDO


Pedrinho caminhava  para a escola.  Aborrecido, cabeça baixa, a mochila pesando nas costas ...  
 As palavras de sua mãe pesavam muito mais que a mochila. "Encontre um modo de resolver isso, sem briga, argumente, use suas próprias palavras. Dê o seu jeito".
          Ela não entendia. Era mulher, não podia entender mesmo. Como poderia um menino fugir a uma luta ... assim? Ele fora desafiado.  Se não aceitasse seria chamado de "covarde". Hoje ele era respeitado na escola, ninguém tirava "chinfra" com ele.
          A turma estava esperando. Havia apostas,  ficou sabendo.
         Enquanto ia circundando o muro do colégio, os colegas iam chegando: - Aí cara ... apostei em você. Três horas da tarde lá no matagal atrás da escola.
          Os meninos haviam parado com as disputas dentro do colégio, pois os pais eram chamados e os alunos suspensos. Foram para as ruas próximas, mas sempre havia algum pai passando, que os arrastava de volta à secretaria da escola. Mais reunião e suspensão. Decidiram, então, ir para mais longe. Um matagal escondia o muro que havia atrás do colégio, e consequentemente, tudo que acontecia por lá. Parecia um bom lugar.
          - Aí, covardão ... não vai fugir não, hem???   Um garoto "mandou essa", enquanto passava por ele, que devolveu a ofensa com o gesto mais feio que conhecia.
       Estranhamente, as palavras de sua mãe incomodavam mais que a ofensa do garoto.
          - Eu não entendo, disse ela. Porque você vai brigar com um menino de quem você era amigo até uma semana atrás? Jogam bola, vão aos aniversários um do outro.
       - Mãe, fui desafiado, não posso sair fora. Aí sim, serei covardão e todo mundo vai  me zuar. 
       - Você não tem que provar nada para ninguém, você sabe o que você é, e pronto. Isso basta. Não alimente essa fama de brigão, todo mundo sabe que você é corajoso, você tem outras qualidades para mostrar. Já parou para pensar que vocês vão lutar apenas para divertir os outros? Eles instigam vocês para a luta, querem se divertir, mas se acontecer algo, são vocês dois, brigões, quem vão ficar mal. Isso não é ser amigo. Pense!
           
      As palavras da  mãe ficavam martelando na sua cabeça. Ele não queria decepcioná-la, só não sabia o que fazer. Ficava irado quando era chamado de medroso ou covarde. Todos sabiam que ele não era covarde. Já dera mil provas disso, inclusive, salvando esse mesmo menino, com quem ia lutar, dos pivetes de rua, ajudando-o a correr ... correr ... correr. Ele foi muito corajoso naquele dia, enquanto o amigo ficou chorando que nem bobão. E ele, Pedrinho, não contou nada para ninguém na escola. Não queria humilhar o colega.
           
             Pedrinho ia se aproximando do portão de entrada do colégio, o garoto, seu desafiador, estava parado com ar ameaçador esperando por ele.
         Pedrinho se aproximou, estendeu-lhe a mão: - Aí cara, então,  três horas da tarde. Se você quiser lutar, tudo bem. Mas não tenho nada contra você. Nem sei porque nós vamos fazer isso.
           - Tudo bem. Eu também não tenho nada contra você. Não precisamos lutar. 
           Pedrinho até achou que o amigo estava ali no portão tomando coragem para fazer a mesma coisa que ele.  Estender a mão e acabar com aquilo.  
            Os punhos fechados se tocaram, amigavelmente.
            E a disputa acabou ali. 

Texto: Marina Alice Rezende
Ilustrações: Internet 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

POESIAS DO ADEUS

Ah! Mamãe ...
Parecia eterna!
Um dia ela seria chamada,
mas parecia tão distante ...
E ela se foi.
Que vazio!

Ela muito amou
e tanto construiu,
quando tudo terminou,
ela se despediu.



Ao receber o chamado
simplesmente obedeceu,
caminhando para a luz
foi-se embora para sempre.
Deixando-nos
além do adeus,
suas lições de amor à vida. 

Ainda bem ...
consigo chorar.
Só assim,
minha explosão,
mil gotículas formarão
e os Jardins do Éden
regarão,
enquanto os anjos
em coro,
te embalarão,
minha mãe!



                                          
                                               

                      Apaziguada,
 não choro mais.
Tenho certeza,
você me quer
alegre, 

nessa travessia.
Adeus!
Siga em paz.
Suas lições
já aprendi.





Essa maneira
de me expressar
em verso
copiei de ti.
Que outro jeito 
eu poderia 
falar contigo?
Seguir um canal 
já aberto
fica mais fácil
chegar até aí.



                                    SONHOS                                            
                                             
                                            

Em sua nova morada
caminhava de lá prá cá.
Alheia aos acontecimentos,
seu semblante iluminado
transparecia imensa paz.
A lhe fazer companhia
Um cãozinho apareceu.
Em meio às brincadeiras,
mordidas e risadas,
seu rosto sorridente
começou a remoçar.




Pela porta entreaberta,
envolta em dourado,
atenta,
parecia esperar.
Sua avó banhada em luz
estaria a chegar.





* Poesias de Marina Alice Rezende






quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

RESPEITO ... UM DIREITO NOSSO.

          Sete horas da manhã, Luísa beijou sua filha, que saia para trabalhar. Aos dezessete anos, era seu primeiro dia, em seu primeiro emprego. Tinha acabado de passar para uma faculdade pública, e ainda não sabia se iria trabalhar de dia e estudar á noite, ou vice-versa. Estava em negociações. Negociar, é coisa que ela sabia fazer muito bem. Devia ter puxado ao pai, pois Luísa era péssima em negociações.
             Torcia por ela, esperava que a filha tivesse tanta ou mais sorte que ela, no quesito Chefe.
            Montenegro, grande figura humana, era arquiteto, na empresa de telecomunicações onde Luísa trabalhou. Foi seu chefe durante quatro anos e com ele aprendeu grandes lições de vida. Nunca mais o viu, mas até hoje, passados mais de vinte anos, ela às vezes se dava conta, que estava repetindo aqueles mesmos ensinamentos, à sua filha e a seus outros jovens familiares.
          Na época, muito jovem ainda, nem o reconhecia, com essas grandes qualidades que a maturidade hoje a fazia ver. Pelo contrário, muitas vezes não entendia seu comportamento e o achava muito esquisito. Como daquela vez em que ele lhe disse: “De tempos em tempos, volto a me apaixonar pela minha esposa”. Ela achou péssimo. Quer dizer que ele, de tempos em tempos, deixava de gostar da esposa ? Que triste!
           Foi preciso uma vivência de anos, para Luísa entender o que ele quis dizer. O amor existe sempre, mas a paixão vai e volta.
         Que lindo! Estarem casados vinte ... trinta anos ... e poder dizer: Estamos apaixonados!
         Sim, a paixão adormece. É impossível ficar no frenesi da paixão 24 horas por dia, anos a fio. Mas de vez enquando ela volta, e lá estamos outra vez, revirando os olhinhos, obsecados por nossos companheiros novamente. Isso acontece. Hoje, Luísa entende isso.
        De quando em quando, lembrava-se dele, seu ex-chefe, consciente hoje, do grande mestre que a vida colocara em seu caminho. Com filhos na mesma faixa de idade, vivia lhe dando conselhos, e ela, imatura, achava-o chato e implicante.
           
          Por duas vezes, sem que ela percebesse, seu chefe saiu da sala onde trabalhavam, furioso, para tomar providências contra alguém que a havia desrespeitado.
           
          A primeira vez foi quando, à noite, portanto fora do horário do expediente, Luísa saia do teatro com uma amiga, quando viu  um colega de trabalho. Tentou se aproximar para cumprimentá-lo, no que  foi impedida pela amiga, que lhe disse: “O cara tá doidão, nem sabe quem é você”. Luísa não acreditou e se aproximou, mas logo tiveram que sair correndo, pois o sujeito realmente estava doidão e nem sabia quem era ela, embora trabalhassem juntos, todos os dias, na mesma sala. Luísa e a amiga, fugiram e correram muito, pelas ruas do centro do Rio de Janeiro, quase vazias àquela hora, com ele em seu encalço. Sorte que apareceu um táxi, deixando-as em casa. No dia seguinte, o rapaz foi posto à disposição do Departamento e nunca mais o viram.
         
           Numa outra vez, ela saía da Empresa para almoçar em casa, que ficava perto, quando dois funcionários vinham saindo também e, um deles começou a falar barbaridades pornográficas para Luísa. O companheiro mandou-o parar com aquilo, e se afastou dele. Luísa chegou em casa furiosa, reclamando com a mãe: “Porque aquele sujeito se acha no direito de me desrespeitar?”. Voltando ao trabalho, muito aborrecida, contou o fato aos colegas. Tão enraivecida ela estava, que não percebeu a saída do chefe, indignado.
          Nos dias posteriores, ela percebeu que quando chegava ao trabalho, e entrava no pátio que dava acesso à Estação, o pátio ficava vazio, os funcionários sumiam, e aqueles que não conseguiam sair antes que ela entrasse, viravam-lhe as costas e olhavam para o chão. Ninguém a encarava, nem aqueles acostumados a cumprimentá-la normalmente.
          - Esquisito ... desconcertante! Luísa contava para sua mãe. Sabe, aqueles jogadores de futebol que levam bronca do juiz e ficam olhando para o chão? Igualzinho.
          Naquela Unidade onde Luísa trabalhava, mais de noventa por cento dos funcionários, eram do sexo masculino, e aquela foi a única vez em que foi desrespeitada nos quatro anos que ali trabalhou.
          A filha estranhava quando ela contava essas coisas: A mãe correndo de malucos, e ainda precisando de ajuda do chefe para tirá-la de situações embaraçosas. Era inconcebível !
        Luísa não entendia porque alguns homens, ralé mesmo, se achavam no direito de desrespeitá-la com palavras e gestos obscenos.
          - Acredito, disse à filha, que hoje em dia, os homens estejam mais respeitosos, se acostumaram com mulheres trabalhando e estudando, fora de casa, nos horários mais diversos.
         
- Tenho certeza, continuou, que você não vai passar pelos vexames que eu passei. Os tempos são outros, e já existem leis contra o assédio sexual.
          
       Finalmente, sua filha conseguira trocar o horário do trabalho para a tarde. Estava tão feliz!
          
                 E ... Coincidência!
            A jovem foi abordada por um senhor, cuja firma presta serviços para a empresa em que ela trabalha, este senhor, observando o crachá dela, perguntou se ela era parente de Luísa, pois além da impressionante semelhança física, ele também reconheceu o sobrenome. Respondendo afirmativamente, ela recebeu um forte abraço do ex-chefe de sua mãe, que apesar da idade, ainda continuava na ativa.
          Luísa sugeriu à filha, que o convidasse para seu aniversário de dezoito anos, que seria comemorado no próximo sábado. A jovem gostou da ideia e assim fez.
          Realmente,  Montenegro,  um homem honrado,  deixou ótimas recordações em sua passagem pela vida de Luísa.


*Autora: Marina Alice Rezende                   

sábado, 14 de janeiro de 2012

O PARAQUEDISTA

Crédito imagem paraquedista
Licença:CC Attribution 2.0  Autor: aokettun



Ângelo recostou-se. Não pretendia dormir, embora estivesse muito cansado. Mestre de salto de paraquedismo, acabara de chegar de um treinamento muito cansativo.
Lya, sua esposa, estava entrando em trabalho de parto. Ângelo queria ficar ao seu lado dando apoio moral. Mas dormiu.
Percebeu que estava sonhando. 
        Sim. Sabia que era um sonho. 
      Ele se viu levantando da cama indo até o aparelho de TV, ligou-o. Imediatamente sua imagem apareceu na tela e sua voz soou no aparelho:
“Meu nome é Ângelo, voar é minha paixão. Treino salto em queda livre de pára-quedas . E agora estou prestes a realizar mais um salto.
Se existe algum motivo real para virmos a este mundo o meu é aperfeiçoar os mais variados modos de vôo possível a um ser humano.
Chegando à porta do avião de onde farei o salto, recordo-me,  já passei por isto antes.
- Que emoção!!! Como é que eu não me lembrei disso antes? Está acontecendo de novo! O pára-quedas não abriu, estou rolando ... rolando... o vento me joga para todos os lados. Não adianta lutar ... deixo o vento me levar ... 

Mais calmo agora, abro os olhos devagar e lá estou eu de novo. Atravessando a barreira entre as dimensões, entro num caminho paralelo e chego ao Campo de Treinamento de onde se pode voar em qualquer direção no tempo”.

- Outra vez! ... O treinador vinha bravo em minha direção. O que foi desta vez?
- Foi a emoção, respondi envergonhado.
A consciência me voltava aos poucos. Aquela era minha missão. Voar entre as dimensões, aperfeiçoando técnicas de vôo e protegendo aos que como eu, amavam voar.
Haviam coisas a aprender – conhecer meus limites, por exemplo, para aproveitar melhor meu potencial. Sou um ser jovem, afoito, mas estou aprendendo.
Como treinamento e até como uma chamada à ordem, pois meu treinador, impaciente, achava que eu cometia erros primários, voltei para uma espécie de curso onde, como num filme, toda minha trajetória, desde o inicio dos tempos, me foi reapresentada.
Vi-me como uma espécie de mini-bolha explodindo em muitas outras bolhinhas. Alegremente, saltávamos cada vez mais alto de um lado para outro. Percebi o resquício de consciência aparecendo. A cada nova percepção, viajava vertiginosamente pelo tempo. Percebia-me rolando, pulando, correndo e voando ... voando ...
Voava com o vento ... voava contra o vento ... Voava... voava...


Aos poucos, aborrecido, percebi um vento mais forte atrapalhando meu vôo. Inimigos, começamos a medir força. Um tempo difícil de aprendizado e crescimento.
        Milênios se passaram até que eu o reconhecesse um amigo. 
O meu treinador.
Com ele aprendi tudo que sei sobre a arte de voar.
Foi em sua companhia que treinando nosso balé aéreo aprendi o looping, o tonneau e o snap roll, entre outras manobras aéreas.


– Ahh !!! O prazer de voar ... voar ... girar ... girar ... que fantástico!.
Me diverti em inúmeras tentativas de imitar o vôo dos pássaros, com os quais aprendi a me comunicar. 
Amante das máquinas voadoras que ás vezes explodiam em pleno ar, partia cedo demais. Aos poucos fui percebendo que podia desviar os pássaros das rotas dos aviões evitando acidentes aéreos. Mas era aos amantes dos esportes aéreos que dedicava minha paixão incondicional. Vibrava e sofria por eles. Amortecia-lhes a queda desviando-os de pedras e objetos pontiagudos, fazendo-os cair sobre árvores e mares. Ficava exausto, mas feliz.
- Ah! Vários dele, velhos conhecidos, pois já caminhamos juntos nos vários desdobramentos do tempo.
Volto para a sala do curso, onde estão sendo discutido os erros cometidos nos últimos acidentes.
Emocionado, descobri entre os colegas, Lya, minha outra grande paixão.
Juntos, desde o início, na explosão das primeiras bolhinhas, temos caminhado, ou melhor, voado juntos, desde sempre, sob as bençãos de nosso treinador. Que tem nos mantidos unidos através das dimensões. Nosso encontro é sempre uma festa. O tempo nunca foi uma barreira para nós, pois aprendemos a quebrá-la, através do desenvolvimento de várias técnicas de comunicação, mesmo estando em dimensões diferentes.
Lya fizera parte de minha última equipe de salto. No dia do acidente, Lya não saltou, e me cedeu seu lugar. Àquela tarde ela faria uma palestra sobre segurança nos saltos e queria prepará-la. Palestra esta que nunca aconteceu. O trajeto terrestre de Lya foi interrompido por bandidos, que além do equipamento de salto que levava,   roubaram também sua energia vital, tornando rápida sua passagem por aquela dimensão.


    - Desta vez, prometeu o treinador, vou cuidar pessoalmente dos dois, aliás dos três. Uma grande missão espera por vocês. Uma brisa morna, amarela e brincalhona envolveu-nos.
  Percebemos que iríamos voltar e levaríamos junto um aprendiz. Nossa responsabilidade dali para frente.


      Ângelo acordou assustado e sobressaltado, sentindo as unhas de Lya arranhando seu rosto. “Vamos Anjo ... vamos. Está na hora... a bolsa estourou .. já está na hora do neném nascer”. Atordoado ele correu, vestiu a farda, pegou a maleta com as coisas de Lya e do neném.


     O Piloto Flávio, seu colega de aviação, os esperava no carro, pois iriam voar à tarde. Mas antes deixariam Lya na maternidade.


     Antes de sair, Ângelo apagou o televisor, onde havia a sua imagem congelada, bem como a de Lya e um vulto amarelo de um bebê. Abraçando a todos, como um pai, o treinador sorria. 


         “Estranho, pensou Ângelo, o treinador é um “clone” do piloto Flávio. E a televisão ligada? Mas aquilo não foi um sonho"?  Pensaria nisso mais tarde. Agora Lya esperava por ele aflita.



* Autora: Marina Alice Rezende
    Ilustrações: Internet 



quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

LEMBREI ... EU SEI QUEM VOCÊ É.

Há anos eu não voltava ali. Estava feliz relembrando a infância, o ônibus passando por aquelas ruas tão conhecidas ... as casas continuavam as mesmas, as pessoas ... algumas tão familiar.
Paramos na Rodoviária. Enquanto esperava o embarque de alguns passageiros, olhava distraidamente o movimento pela janela do ônibus. Foi quando me deparei com aquele olhar, sério. Era impressão minha ou havia rancor naquele olhar. Quando nossos olhares se encontraram ele virou o rosto enraivecido e saiu mancando. Fiquei consternada. Pensei ter fixado meus olhos, sem querer, naqueles pés que caminhavam com dificuldade. Magoei-o sem querer. Sentí-me culpada.
Passei a vê-lo outras vezes na mesma rodoviária quando ali voltava. Ele sempre com aquele olhar estranho. Eu sempre evitando olhar para ele.
“Ele nem me conhece, porque será que me olha tão esquisito?”
Pouco tempo depois, voltando para a Festa da Cidade, surpresa, vi o rapaz sentado numa mesa com a família. Família aliás muito conhecida. “Hum ... quer dizer que a gente já se conhecia”, pensei. Tantos anos sem retornar àquele lugar era normal que antigas memórias me voltassem e estranhos sonhos me ocorressem. Sonhava com um menino, à cavalo, parado no alto de um morro, me olhando com rancor e ódio. Era assustador, parecia me esperar e eu sabia que não tinha como escapar dele. Passei a sonhar essa mesma cena todas as noites.
Sonho ... ? Não, não era um sonho e sim uma memória guardada no inconsciente. Aos poucos a coisa foi clareando e comecei a me lembrar. Havia sim um garoto, um pouco mais velho que eu, sempre à espreita, me vigiando, montado à cavalo, lá encima do morro no caminho da escola, pela manhã no horário das aulas. Não havia como fugir, qualquer caminho que eu tomasse, lá estava ele, a me perseguir, tentando me atropelar com o cavalo.
Como num quebra-cabeça as peças começaram a se encaixar. O garoto era amigo do meu irmão. Às vezes ele estava à espera, e meu irmão chegava antes de mim, então os dois saiam juntos rindo e conversando. O menino sempre à cavalo.
Porque ele me perseguia? Porque eu não falava com minha mãe ou com meus irmãos?
Esquisito, sempre que eu me perguntava isso, me vinha uma sensação de culpa. Eu fiz alguma coisa para aquele garoto. Por isso a raiva, a perseguição.
De tempos em tempos eu voltava a me lembrar desse episódio e ficava me perguntando: Por que eu não pedia socorro a minha família? Se meu irmão era tão amigo do menino, porque eu não falava com ele? E quem era esse garoto?
Com medo, eu nem saia de casa e não queria mais ir à escola. Pressentindo algo, minha mãe pedia a meu irmão que me acompanhasse. Quando eu estava acompanhada, o rapazinho apenas me olhava, com aquele olhar raivoso de quem dizia: “você vai ver ... ainda te pego!”.
Um dia para fugir dele tomei um outro caminho. Inesperadamente, ele me apareceu à galope, devia estar escondido à espreita, pois não percebi sua chegada e, surgindo do nada, jogou o cavalo encima de mim. Não queria me machucar, só assustar, pois quando me viu tropeçar e cair, com as patas do cavalo quase a me atropelar, com impressionante controle ele manejou a montaria e fugiu em disparada.
Nunca mais o vi. Não sei se ficou assustado pois poderia ter me machucado seriamente; o fato é que nunca mais o vi e tinha me esquecido completamente desse episódio.
Só agora, tantos anos passados, volto a vê-lo e me recordo, então, do real motivo de seu rancor por mim.
“Uma manhã ia entrando na escola, quando vi um menino à cavalo, descalço. Minha mãe vivia dizendo que era feio andar descalço, só andava descalço quem não tinha dinheiro para comprar sapatos. Por isso, quando eu o vi, não titubeei: – Hi! Não tem nem dinheiro pra comprar sapato”.
Seu problema não era falta de dinheiro, e sim um defeito congênito, que o impedia de calçar sapatos. Fato que deveria aborrecê-lo profundamente. Na época, não percebi o problema físico. Só agora, analisando os fatos, friamente, consegui identificá-lo como o autor desse episódio.
Um dia, contando essa história a meu filho, ele me disse que conhecia o rapaz em questão e, que o mesmo havia perguntado se ele era meu filho. Sabia até o meu nome.
       
Eu já o perdoei, e ele, será que me perdoou também?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
*Autora: Marina Alice Rezende
  Ilustrações: Internet